"Ele não usa óculos mais."



Era mais de meia noite, e eu ainda estava lavando a louça e preparando o lanche dele para o dia seguinte. Tinha que acordar as cinco da manhã para ir trabalhar e correr deixar ele na escolinha infantil antes.

Quando finalmente apaguei as luzes da casa, notei que a luz do seu quarto estava acesa. Quatro horas antes, após mais de uma hora contando vinte e sete histórias para ele dormir, fizemos nossas orações e o coloquei na cama, então achei que estivesse cansada demais e acabei me esquecendo de apagar as luzes de seu quarto quando ele finalmente adormeceu.

Quando me aproximei de seu quarto, ouvi alguns risos inocentes daquele garotinho de três anos. Ele contava algo que havia acontecido em seu dia, entre palavras inacabadas e sorrisos de alegria. Respondia perguntas, concordava, dizia que sim e obrigado. Como morávamos no segundo andar, eu sabia que ninguém estava lá, talvez ele estivesse apenas sonhado.

Aí notei que a luz diminuiu, mas ao mesmo tempo me lembrei que não havia um abajour perto de sua cama, e ele teria que andar até ao lado da porta para desligar a luz. Em questão de segundos, ouvi:

“Boa noite, vovô.”

E após alguns segundos:

“Também te amo.”

Ao abrir a porta, deparei-me com um garotinho de sorriso largo, luzes apagadas, acordado.

Acendi a luz, olhei para ele, chequei a janela, tudo trancado. E ele, feliz.

Perguntei, “estava sonhando, filho?”, no que ele me respondeu:

“Não mamani, estava conversando com o vovô.”

Como não queria me estender, e queria que ele dormisse logo porque teria que acordar em algumas horas, só o cobri, dissemos boa noite, dei-lhe um beijo e disse-lhe que o amava, e daqui a pouco teríamos que acordar. Ele me deu um abraço apertado, deitou e dormiu logo em seguida.


Eu e o meu garotinho de três anos de alma doce e olhos brilhantes, há muitos anos.

Meu pai faleceu quando eu ainda estava grávida de quatro meses de meu filho. Seu sonho era ter um neto, que pudesse continuar as aventuras que não teve tempo de ter com meu irmão. Queria lhe contar histórias, ensinar sobre a vida, ter “papo de garotos”, e compartilhar tantas aventuras vividas.

Eu não tive tempo de contar para meu pai que estava esperando um menino, aquele infarte infeliz o levou antes de eu conseguir fazer o anúncio. No fundo, eu sabia que ele sabia, e eu sabia que lá ele estaria, em pessoa ou em espírito, como também nas horas que eu mais precisei de sua palavra amiga e sua sabedoria incomum.


O Vovô Ayres, pouco antes de falecer.

Alguns dias se passaram e o final de semana chegou. Juntos, dávamos uma ajeitada na casa para o fim de semana, e sempre tínhamos alguma atividade ao ar livre ou um passeio no parque programado, seguido de um cinema, com pão de queijo ou um prato de massa italiana no shopping center da cidade.

No final da tarde, quando retornamos ao lar, notei que alguns álbuns de fotos estavam em cima da estante da sala. Aí, sentamo-nos no sofá, e começamos a olhar as fotos antigas da família. Aquelas fotos estavam ali há não muito tempo, pois eu as havia trazido da casa de minha mãe e outros parentes que me passaram algumas cópias.

Comecei a mostrar as fotos a ele, e de repente, ele aponta para uma foto de meu pai e disse:

“Vovô!”

Afirmei, “sim, este é o vovô Ayres”, certa de que já havia lhe mostrado a foto de meu pai antes. Não me recordava quando de forma alguma, talvez anos antes, quando ele era ainda um bebê, mas não tinha sequer certeza que havia lhe falado a respeito dele. E então, ele me disse:

“Mas por que ele está usando esses óculos?”

E eu expliquei que ele havia perdido a visão enquanto ainda jovem, e usava aqueles óculos escuros porque queria somente evitar perguntas de estranhos sobre a aparência de seus olhos.

“Mas ele não usa óculos mais.”

Meu coração pulou. Minha fé me faz acreditar que talvez eles se encontraram no mundo espiritual antes dele nascer neste mundo, quando meu pai adentrou sua esfera após sua morte. Sempre quis acreditar que eu já conhecia minha família e aqueles que vieram antes de mim, e que, de alguma forma, apenas nos reencontramos aqui como pais, filhos e netos.

Contei a ele naquele instante que vovô era muito inteligente, escritor, contava muitas histórias engraçadas e gostava de ensinar e ajudar as pessoas. Contei a ele que seu sonho era ter um netinho e que um dia o veríamos novamente e ele poderia conversar com ele sobre tantas coisas.

"Eu sei."

Ele sabia, e sorria.

Mas agora precisávamos tomar banho, jantar e nos preparar para dormir, já que teríamos que acordar cedo para irmos à Igreja no dia seguinte, domingo.

Na hora de dormir, separei os vinte e sete livros de histórias. E começamos a nossa maratona de todas as noites.

Após a última história, eu estava mais dormindo que ele, e com os olhos brilhando, ele me olhou e disse:

“Obrigado, mamanina. Eu amo você, o vovô, e Jesus.”

E dormiu.

A luz de minha alma não se apagou aquela noite. Por anos, senti-me indigna por ter adiado tanto a notícia da novidade de que teria um filho ao meu pai. Mas hoje sei que, aquele garotinho de três anos o conheceu, e aprendeu sua sabedoria, e conheceu tanto seu vovô, de uma forma que eu ainda tenho muito a fazer para lá chegar.

Um dia, também quero vê-lo sem os óculos, Pai.

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