Mães que sabem

Updated: May 10, 2019



Há quase 19 anos atrás, eu que sempre reconheci os milagres diários na minha vida e de minha família, comecei a entender melhor como o Senhor pessoalmente age e como conhece bem Seus filhos e filhas.

Eu não podia ter filhos, e já havia perdido alguns bebês. Quando engravidei novamente, eu tentei não cultivar esperanças, porque “cientificamente”, não havia possibilidades de eu ser mãe.

O mundo desabou quando engravidei. O abandono após uma separação e o falecimento de meu pai nos primeiros meses de gravidez me jogaram contra a parede. O risco de vida, as dificuldades emocionais e financeiras, e a possibilidade de uma criança nascer com tantos problemas se sobrevivesse eram monstros que não me deixavam dormir. A necessidade de trabalhar e ajudar a sustentar uma mãe viúva não me trazia muitas escolhas. Minha alma estava profundamente ferida, porém, os planos do Senhor eram maiores que meu desejo de desistir.

Era setembro e as flores desabrochavam naquela quarta-feira ensolarada todavia corrida de primavera. Eu teria que trabalhar até às nove da noite em meio às dores que não tinham fim e sob condições caóticas. Às dez da noite, quando precisei correr ao hospital ao descobrir que minha bolsa havia estourado às duas da tarde, ninguém tinha noção do que estava acontecendo comigo, muito menos conhecimento de minha gravidez.

Para surpresa de todos e um verdadeiro milagre, meu filho nasceu às quatro da manhã. Ele não chorou. Os médicos acharam impossível que eu e ele sobrevivêssemos. Mais tarde, eu soube que definitivamente jamais seria mãe novamente. Mas, os planos do Senhor eram maiores que todo o conhecimento científico e minha pequena fé.

Aquele bebezão perfeito, cabeludo e faminto transformou a vida, as conclusões e os corações das pessoas. Oportunidades vieram, melhoras e apoio da família e na vida profissional e espiritual. Nada sem sacrifício e muito trabalho, e extensas e infindáveis provações, de todos os tipos, mas o Senhor abriu caminhos através daquela criança amorosa, sorridente, bem-humorada e eu sou feliz que pude ser um instrumento para sua vinda ao mundo.


Ele enfrentou alegre e bravamente o primeiro dia da escola aos três anos de idade; soube vencer e também perder os muitos jogos e competições nos diversos esportes que participou; sentou na direção do carro quando tirou sua carta de motorista com cuidado e dirigiu com um sorriso de orelha a orelha, mesmo enquanto eu estava tentando respirar tamanho era o medo que sentia! Nós sorrimos, nos abraçamos e beijamos, nos despedimos e nos recepcionamos, brincamos, pulamos, choramos, limpamos, corremos, bagunçamos, viajamos (muito!), descobrimos talentos e paixões, amamos e vivemos tanto!

Anos mais tarde, novos rumos me trouxeram novas oportunidades de trabalho, e um novo casamento. Ainda assim, viajamos a países diferentes e conhecemos pessoas maravilhosas. Os anos da adolescência lhe trouxeram alguns sentimentos tristes devido aos rótulos colocados pelos amigos numa sociedade onde não tínhamos os problemas básicos de sobrevivência, mas repleta de desafios mentais e emocionais. A morte trágica do pai que nunca sequer tentou conhecê-lo, e que despertou o sentimento certo de que faria diferente.

Muitas vitórias em outras áreas da vida e a busca incessante por paz e alegria – a alegria que somente a vivência do Evangelho no lar pode trazer. A construção da fé e do testemunho acompanhada de bênçãos e dificuldades contribuiu para o entendimento personificado do Plano pessoal e o desejo ainda mais acentuado de ir e cumprir uma missão de tempo integral.

Um ano antes da missão, as provações se intensificaram. Com a recessão no país, as diversas diferenças culturais, o bullying na escola, a distância do suporte familiar, a troca de emprego, problemas de saúde, cirurgias, sessões inacabáveis de fisioterapia, o tempo voou e a minha preocupação com os dardos inflamados do inimigo em sua vida se intensificaram.

O desejo de servir porém, era ainda mais intenso, e existia desde que ele tinha dois anos de idade...


Mas, preocupada, eu quis lhe trazer à realidade.

Perguntei-lhe:

“Você quer cumprir uma missão porque é uma tradição que temos em nossos lares como membros da Igreja, porque a maioria de seus amigos já foram ou estão se preparando para ir, porque a missão é considerada quase como um dever dos jovens, principalmente os rapazes, ou por que, exatamente? Como você se sente a respeito?”

Aflita pela resposta, eu ainda preferi que ele a respondesse conscientemente. E ele me relembrou dos tempos onde minha preocupação maior era tê-lo seguro em meus braços e sob as minhas asas, e de todas as provações e do milagre de seu nascimento.

Ele disse:

“Mãe, quando eu era um pequeno garoto e líamos juntos o Livro de Mórmon, você me ensinou que os quase 2.060 jovens guerreiros de Helamã, alguns com 16 anos de idade, estavam prontos fisicamente, e possivelmente também mentalmente e espiritualmente e, acima de tudo, agiam com perfeita obediência. Eu aprendi que quando somos obedientes colhemos bênçãos, mas eu sei que quando obedecemos com exatidão, veremos e faremos milagres. Eu estou pronto.”


(Farewell My Stripling Warrior, Del Parson, 1999)

Aqueles mesmos olhos amendoados que me fitaram quando pude abrir os meus horas após o parto, olhavam-me fixamente agora e quebrantavam a minha alma e o meu coração, com toda sua ternura, sangue do meu sangue, amor da minha vida, minha família eterna. Sua estatura espiritual e sua coragem em desbravar o desconhecido me deixaram sem palavras.

As experiências inesquecíveis de sua ordenação ao Sacerdócio de Melquisedeque, sua investidura no templo, seu discurso de despedida, sua designação como missionário por nosso querido Presidente da Estaca, foram somente uma prévia de toda a emoção que estava por vir.

Como mães, nossos sentimentos quando enviamos nossos filhos para o campo missionário são mistos. Sabemos que eles estarão no melhor lugar onde deveriam estar. Sabemos que, a serviço do Senhor, Seus anjos os protegerão e o Espírito estará com eles uma vez investidos. Porém, sabemos também que serão maltratados e expulsos, debochados e desprezados, e voltarão somente após dois anos, ou antes por qualquer motivo, seja com seus testemunhos fortalecidos ou seu orgulho ferido, seja sãos ou doentes e fisicamente comprometidos. Ou talvez, nem sequer retornarão.

Como mães, também precisamos fortalecer nossa fé, porque eles precisam de nosso apoio, ânimo e nosso testemunho. É um sacrifício de famílias, e como sabemos, com o intuito de levar o Evangelho ao mundo e ajudar outras famílias a conhecerem a eternidade.

As mães dos mais de dois mil jovens guerreiros de Helamã, história do livro de Alma 53-56 no Livro de Mórmon – as mães dos missionários pioneiros, e Maria, a mãe de Cristo – não somente ensinaram seus filhos e possuíam testemunho forte. Elas tinham algumas qualidades definitivas: Sobreviveram sem telefonemas ou sessões de Skype no Dia das Mães ou Natal, e possivelmente sem quaisquer cartas semanais. Nem elas nem seus filhos desistiram. Eles estavam comprometidos a cumprirem sua tarefa, sem garantia de que estariam vivos no final. Eles não duvidaram porque tinham o conhecimento de que suas mães sabiam. Eles conheciam o Salvador, e bravamente enfrentaram o medo e a solidão, com algum controle e equilíbrio emocional, além de força física, e principalmente, suas mentes e a força de seus espíritos.

Acompanhei meu filho com o rosto coberto por lágrimas aquele 29 de julho de 2015 ao Centro de Treinamento Missionário em Provo, Utah. Ele se foi, com suas duas malas e seu terno limpinho, com um sorriso nos lábios, passo rápido, animado, exatamente como no primeiro dia da escola aos três anos de idade – sem olhar para trás.


Eu tive o privilégio de falar com ele ao telefone quando no aeroporto após as seis semanas no CTM, antes da viagem de quase 24 horas para sua missão, e ele fez questão de prestar seu testemunho e declamar a Primeira Visão de Joseph Smith completamente memorizada na nova língua que aprendeu. Ele me disse que havia feito a meta, mas que sempre teve dificuldade de memorizar, porém após muito jejum e oração, ele conseguiu e não via a hora de compartilhar comigo. Já não era mais o meu pequeno e indefeso bebê que havia lutado tanto pela vida ao nascer. Ele sabia, assim como eu.

Se você é mãe de um missionário de tempo integral para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias neste momento, seja a luz que ele precisa. Quando ele se sentir como se ninguém o ouvisse, lembre-o de que Jesus muitas vezes falou ao vento, repetiu Seus ensinamentos e ainda lhe condenaram, sem sequer ouvi-Lo. Se estiver cansado por andar demais através de rios e colinas, ou pedalar suas bicicletas por milhas sem fim, lembre-se de que o jumento de Jesus não possuía marchas nem marca. Quando ele estiver morrendo de calor e suando a temperaturas exaustivas, lembre-o que Cristo suou sangue pelos poros como ninguém. Quando tiver problemas com seus companheiros, lembre-o de Judas que vendeu a Cristo por algumas moedas. As pessoas poderão debochar de nossos filhos, mas lembremos que Cristo foi obrigado a usar uma coroa de espinhos, capa e chamado Rei dos Judeus por deboche, não reconhecimento. Se o peso dos livros na mochila pesar, que possamos lembrar nossos filhos do peso da cruz no Calvário. Se as mãos doerem de bater nas portas nunca abertas, lembremos dos cravos nas mãos e nos pulsos do Salvador. Quando as cartas demorarem ou não chegarem, lembremos de que Cristo também se sentiu abandonado na cruz.

Acima de tudo, lembremos nossos filhos de que o Salvador do mundo cumpriu Sua missão. Ele percorreu o mesmo caminho que nossos filhos e filhas irão ou estão percorrendo. Ele ordenou que compartilhássemos o Evangelho a toda criatura. Ele demonstrou compaixão com nossas faltas e erros, e apresentou um caminho para que pudéssemos resgatar nossa alegria de viver através da retidão e da vivência dos mandamentos e convênios.

Se você é como eu, eu sei que você ora por seu missionário durante todo o dia, e consegue manter o Espírito próximo todo o tempo. As preocupações nunca acabam. Mas as bênçãos são infinitas. Faça sua parte para alimentar os missionários e colaborar com a obra missionária de sua ala e estaca. Mantenha seus nomes nas listas de oração dos templos. Encoraje-os com cartas positivas e inspiradoras. Compartilhe experiências edificantes, citações das aulas e conferências, histórias reais e pequenos milagres que acontecem em sua vida ou com seus antepassados e que ajudam a construir sua fé. Se acontecer de ele precisar voltar antes do tempo, abrace-o como quando pequeno. Ele está vivo, e isso é o que mais importa. E se não estiver, lembre-se: Cristo ressuscitou e vive, e a morte não é o fim.

Eu posso dizer que as provações continuam mas bênçãos inesperadas começaram a chegar. Quando colocamos o Senhor em primeiro lugar, não há espaço para o que não é Dele em nossa vida. Independente do número de bênçãos que virá, moldamos nossa vida para que nossos filhos sejam abençoados e protegidos onde estejam. Confiamos no Senhor e também no Presidente de Missão e em sua esposa para que nos ajudem a cuidar de nossas crianças.


(Elder Ayres com Presidente e Sister Ayre - Argentina Buenos Aires Norte)

Na missão, nossos filhos não precisam que os alimentemos, costuremos, limpemos por dois anos. Eles precisam de nossas orações, nossa fé, nosso testemunho, nossas cartas, e o mais importante, do Senhor. O Senhor, em Sua infinita bondade, perfeita sabedoria e eterno amor, continuará a guiá-los, fortalecê-los e moldá-los para um futuro que nós, talvez, não estaremos vivos para conhecer. Permita que seu missionário cresça e torne-se o homem ou a mulher que o Senhor deseja para que Seu plano se manifeste em suas vidas. E como mãe – ou pai – de um missionário, tente fazer o mesmo.

Os planos do Senhor com certeza são melhores, e Seus caminhos, mesmo se mais difíceis, são pavimentados com Sua glória. Ele guiará nossos filhos rumo a uma vida com propósito e conhecimento do sacrifício e da glória do Redentor Jesus Cristo. Nós, como mães e pais, amamos nossos filhos e possivelmente sentimos o que nossos Pais Celestiais sentiram quando deixamos a Sua presença. Mas o amor do Senhor é perfeito, então, que possamos aprender a amar com mais perfeição, como Ele nos ama.

O Pai Celestial sabia. Maria sabia. As mães dos dois mil guerreiros de Helamã sabiam.

Eu também sei.

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